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13/01/2014 - Henrique Gomes Batista - Jornal O Globo

Novos Caminhos Pelo Mar


Novos Caminhos pelo Mar

 

Mesmo com a economia brasileira patinando, um setor cresce de forma vigorosa, com taxas “chinesas”: a cabotagem, ou o transporte interno de cargas pelo mar, que avança 7,7% só nos primeiros nove meses de 2013, frente ao mesmo período de 2012. O incremento é mais sentido na área nobre do setor de cargas, os produtos transportados por contêineres, nos quais está o maior valor agregado. No período, a taxa de expansão deste segmento foi de 28%. E, segundo analistas, este crescimento tende a ser de cerca de 10% ao ano até 2020, em busca de reduções de custos de logística que chegam a 15%.

No passado, a cabotagem já foi próspera no Brasil, mas o modal foi perdendo força com a queda da indústria naval e o sucateamento das Companhias Docas, que tornaram os portos públicos ineficientes. Entre os anos 90 e a década passada, o setor ficou restrito ao transporte de líquidos (como petróleo e gasolina) e alguns granéis (grãos e minérios). Mas, com a recente modernização dos portos, o cenário mudou. Nos últimos três anos, estima-se que governo e setor privado tenham investido, juntos, cerca de R$ 30 bilhões nos portos do país - em melhoria no acesso, dragagem dos canais e construção de novos terminais. Os aportes foram para a operação em geral dos portos, mas acabaram abrindo espaço para um avanço da cabotagem.

O transporte pelo litoral ganhou impulso também devido aos custos dos pedágios nas rodovias, a nova lei dos caminhoneiros (que exigiu mais paradas dos motoristas) e a saturação nas estradas, aliados à quase inexistência de ferrovias que façam transporte de carga industrial no país.

Para atender ao aumento da demanda, a Aliança Navegação e Logística, líder no transporte de cabotagem, com cerca de 50% do mercado, investiu R$ 450 milhões no ano passado na renovação da sua frota de navios porta-contêineres.

 

70% DA POPULAÇÃO VIVE A ATÉ 100 KM DA COSTA

Ricardo Sproesser, sócio da Mind Estudos e Projetos, cita ainda outra razão: 70% da população brasileira vive a até 100 quilômetros da costa.

- A movimentação na cabotagem cresce, também, pela maior segurança nestes tempos de aumento de roubo de cargas em rodovias.

Cleber Lucas, presidente da Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem (Abac), conta que, nos nove primeiros meses de 2013, o tráfego de contêineres subiu 28%. Embora estime que o ritmo cairá um pouco nos próximos anos, ele acredita que o crescimento continuará forte.

- Há outro fator: o crescimento de renda do Norte e do Nordeste, que amplia as rotas entre o estas regiões e o Sul-Sudeste. É uma tendência.

João Guilherme de Araújo, especialista em logística do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), espera que a cabotagem de contêineres continue crescendo mais de 9% ao ano até 2020:

- Apesar de retirar caminhões das estradas, isso não é ruim para o setor rodoviário, que deixará de fazer ligações de grandes distâncias e vai se especializar em trajetos menores, na ligação do porto com os clientes e no comércio porta-a-porta. Em distâncias acima de 1.500 quilômetros, a cabotagem é imbatível.

Nelson Carlini, presidente da Logz Logística Brasil, afirma que o setor já ultrapassou a movimentação de um milhão de contêineres por ano, contra cerca de 200 mil contêineres por ano no início da década passada:

- O crescimento é tal que os navios estão maiores. Antes, eles transportavam no máximo 800 contêineres. Agora, começam a operar navios com capacidade entre 3.800 e 4.000.

Carlini diz que o avanço da cabotagem é um sinal de amadurecimento das empresas brasileiras, que só podem contar com este modal se houver um bom planejamento. Além da redução dos custos e de maior segurança, ele cita outra vantagem:

- Se uma empresa precisa ampliar rapidamente seu transporte, é mais simples no navio, que tem espaço e pode receber mais contêineres sem muitas complicações. Já no transporte rodoviário, a empresa depende de mais caminhões e motoristas - explica ele, que estima em 15% a redução média de custos das empresas que adotam a cabotagem.

Outro fator que favoreceu a cabotagem foi o avanço do uso de contêineres, explica Sérgio Salomão, presidente da Associação Brasileira dos Terminais de Contêineres de Uso Público (Abratec):

- O contêiner virou um padrão, é simples. Até arroz gaúcho enviamos ao Nordeste via contêiner.

O gerente de cabotagem da Aliança Navegação e Logística, Gustavo Costa, acredita que, após a atração das fábricas de motocicletas para a cabotagem, o próximo desafio são as cargas fracionadas:

- Já conseguimos transportar tudo, até frios, mas ainda faltam as pequenas cargas, quando colocamos produtos de 20 clientes em um mesmo contêiner. Isso depende de uma estrutura para o recebimento e distribuição destas mercadorias, que precisamos desenvolver — disse ele, lembrando que, em geral, os setores de higiene e limpeza e alimentos e bebidas já respondem por 50% de toda a cabotagem nacional.












 



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